Por elas, com elas : do moderno ao contemporâneo

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Sobre


Exposição Coletiva
São Paulo, Brasil
09/09/2026 - 07/11/2026

A mostra Por elas, com elas: do moderno ao contemporâneo visa destacar a participação das mulheres na arte brasileira por meio de dois conjuntos de obras – um de caráter histórico, outro atual – condizentes com o perfil adotado por cada uma das unidades da Dan Galeria, na capital paulista. Essa dupla exposição sugere um percurso que vai de meados do século 20 aos nossos dias, período em que as mulheres, confirmando o pioneirismo de Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, mantiveram crescente e destacada presença na cena cultural, apesar das persistentes dificuldades à ascensão feminina.

Uma pesquisa no acervo da Dan Galeria resultou numa seleção de obras raras capaz de ilustrar o primeiro segmento. São pequenas preciosidades tais como uma maquete arquitetônica feita com caixinhas de fósforos por Lygia Clark, uma pequena coluna de Mary Vieira, um jogo de placas de metal montado por Amélia Toledo, além de um caderno de estudos cuidadosamente elaborado por Eleonore Koch. O resgate compreende ainda algumas séries de desenhos de Judith Lauand, Mira Schendel e Maria Leontina, além esculturas inéditas de Ione Saldanha e pinturas de Tomie Ohtake e Yolanda Mohalyi sempre em pequenos formatos. A intenção é enfatizar o caráter experimental e/ou preparatório dessa produção e assim dar ênfase ao processo de criação dessas artistas, mulheres que construíram suas obras ao lado de colegas do porte de Waldemar Cordeiro, Ivan Serpa, Hélio Oiticica, Milton Dacosta, Manabu Mabe, Iberê Camargo e tantos outros.

A escultora Maria Martins escapa a essa abordagem. Viveu longos anos no exterior, convivendo com expoentes da vanguarda internacional como Marcel Duchamp e Breton. Dela, uma escultura monumental será apresentada no generoso espaço expositivo da Dan Contemporânea. Formada por duas figuras fundidas em bronze a partir de originais em gesso de 1938, a peça de Martins, de raiz surrealista, precede e confina com a abstração que viria abalar a hegemonia da arte figurativa no país, quando no final dos anos 1940, os temas nacionais são abandonados em favor de uma arte abstrata. Essa virada para a internacionalização da linguagem visual não se fez sem protestos. Artistas renomados como Di Cavalcanti resistiram a entrada da abstração mas, com a inauguração da Bienal Internacional de São Paulo em 1951, a missão de construir uma arte nacional virou coisa do passado.

Vários fatores contribuíram para esse arranque em direção à atualização das artes visuais no Brasil. A atuação do MASP, dos recém-fundados museus de arte moderna do Rio e São Paulo e da Bienal Internacional foi de especial relevância na difusão da arte moderna e de seus desdobramentos ao redor do mundo. Basta lembrar a grande exposição de Max Bill e a vinda do artista a São Paulo a convite do MASP e as mostras antológicas das vanguardas históricas trazidas pela Bienal de 1953 (inclusive a de Mondrian) para se ter uma ideia do vulto do conhecimento posto ao alcance do meio cultural brasileiro. Foi nesse clima de efervescência cultural (época da construção de Brasília) que a arte produzida no Brasil em dez anos chegou à maturidade, passando daí por diante a caminhar par e passo com a arte internacional.

Interessa destacar que na transição da arte moderna para a contemporânea, as artistas brasileiras protagonizaram avanços incontestes. Judith Lauand e Lygia Clark, por exemplo, estiveram na linha de frente da arte concreta. A contribuição dessas artistas começou com o esforço de revisão crítica das vanguardas históricas realizado no interior dos grupos Ruptura de São Paulo e Frente do Rio de Janeiro para logo avançar poéticas fundadas em suas próprias experimentações. Não houve simples mimetismo do que provinha dos tradicionais centros de arte moderna da Europa ou dos Estados Unidos, mas o desenvolvimento de criações originais, hoje reconhecidas internacionalmente.

Artistas imigrantes como Tomie (Japão) e Yolanda (Hungria) abraçaram o abstracionismo gestual em voga na virada da década de 1950 para 60 e deixaram suas marcas; outras como Mira (Suiça) e Eleonore (Alemanha) trabalharam quase isoladas em produções altamente individualizadas. Ao longo da vida, a resiliência dessas mulheres resultou em obras muito consistentes e de grande originalidade. Para elas, o reconhecimento foi lento mas chegou. A partir da constatação de que a arte que se fazia no Brasil e mundo afora não era cópia mas criação carregada de informação, de experimentação e de vontade de superação de seus próprios limites, não seria mais possível entender a modernidade artística como homogênea e universal.

Um salto para a virada do milênio e o surgimento da comunicação instantânea. Já não há o que atualizar, tudo é presente. Entretanto, ainda se faz desenho, pintura, fotografia, montagens, cinema e vídeo como no século 20. O segundo núcleo da exposição é formado em sua maioria por artistas participantes dos quadros da galeria. A elas se juntaram quatro convidadas. Essa escolha não tem a pretensão de espelhar a intensa busca por inclusão cultural que mobiliza algumas instituições mas de revelar questões subjacentes à produção desse pequeno grupo de artistas. Um olhar atento encontrará nas obras escolhidas duas temáticas relevantes, ambas conectadas à realidade atual: uma, ligada à natureza e tudo que ela representa na contemporaneidade e outra, ligada à problemática feminina, à intimidade e à posição social da mulher.

Maria Alice Milliet – curadora