Expo Maravilha de José Manuel Ballester - Unibes Cultural

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São Paulo, Brasil
06/11/2026 - 29/11/2026

José Manuel Ballester

Maravilha

Numa conversa que tivemos sobre as suas viagens, José Manuel Ballester me disse que, quando vem ao Brasil, vem ao paraíso. Disse-o em tom de constatação, sem a ênfase que a palavra costuma pedir, e passou em seguida a falar de luz, de horários e de edifícios. A frase ficou comigo porque, dita por um espanhol a respeito do Brasil, ela repete a mais antiga das fórmulas com que a Europa descreveu estas terras, e porque o título sob o qual as suas fotografias brasileiras vêm circulando, Maravilha, pertence à mesma família de palavras. Esta exposição reúne o que ele viu em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Niterói, em Salvador e em Brasília, acrescido de duas séries recentes, dedicadas ao edifício da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Universidade de São Paulo, e ao da Unibes Cultural, onde as imagens agora se mostram.

Sérgio Buarque de Holanda dedicou a essa fórmula o seu livro mais erudito. Em Visão do Paraíso, ele acompanha os motivos edênicos que orientaram o descobrimento e a colonização da América e mostra como os lugares-comuns da tradição, a primavera perpétua, os ares temperados, a longevidade dos habitantes, foram transferidos para a descrição de terras que os cronistas tinham diante dos olhos. O historiador distingue os dois povos ibéricos, pois os castelhanos, segundo ele, deixaram-se conduzir com mais facilidade pelo maravilhoso, ao passo que os portugueses submeteram os mesmos mitos a uma atenuação que os tornava plausíveis. Ballester é madrilenho e chama de maravilha o que vê, mas toma a palavra na acepção brasileira, a da exclamação cotidiana com que aqui se aprova um café ou uma tarde, de modo que o seu título contém as duas atitudes.

Claude Lévi-Strauss chegou a São Paulo em 1935 para ensinar na universidade recém-fundada, e o livro em que narrou a experiência, Tristes Trópicos, trata do que acontece à visão depois da chegada. A cidade pareceu-lhe feita de bairros que envelheciam antes de ficarem prontos, e ele estendeu às cidades do Novo Mundo a fórmula segundo a qual elas passam do viço à decrepitude sem se deterem na idade madura. Quem chama o Brasil de paraíso depois dele sabe que fala de um lugar onde o tempo corre depressa sobre as construções, e as fotografias de Ballester, com o concreto manchado de chuva e os edifícios modernos já marcados pela idade, registram essa velocidade.

Ballester nasceu em Madri em 1960, formou-se em Belas-Artes e começou como pintor antes de passar, nos anos 1990, a conjugar pintura e fotografia, percurso que o Prêmio Nacional de Fotografia da Espanha reconheceu em 2010. Na série que o tornou conhecido, Espaços Ocultos, ele retira digitalmente as figuras de pinturas canônicas, de modo que a Última Ceia fica reduzida à mesa posta e As Meninas à sala do Alcázar. O mesmo princípio opera nas fotografias de arquitetura, em que o pavilhão da Bienal aparece com as rampas e os pilares repetidos até o fundo e nenhum visitante, e a Oca se reduz à curva da cúpula e a um corrimão. A presença humana comparece por via indireta, nos refletores presos ao concreto e nas marcas que as fôrmas de madeira deixaram na superfície, de maneira que cada edifício se oferece como o vestígio de um trabalho e de um uso cujos agentes se ausentaram.

A relação com o Brasil começou em 2007, quando Ballester veio a São Paulo com o crítico Juan Manuel Bonet para fotografar a cidade tendo por fio condutor a arquitetura moderna, e alargou-se depois ao Rio de Janeiro, a Salvador e a Brasília. O visitante encontrará aqui o Copan visto do alto, o Mercado Municipal e as passarelas do Sesc Pompeia, o painel de azulejos do Palácio Capanema, a sala circular do museu de Niterói, a nave dourada de São Francisco em Salvador, a escada de Lina Bo Bardi no Solar do Unhão e os vitrais azuis do Santuário Dom Bosco, e reconhecerá que o olhar estrangeiro escolheu quase sempre aquilo que os brasileiros construíram com a ambição declarada de inventar um país.

As quatro fotografias feitas para esta exposição aplicam esse olhar ao edifício que as abriga. Projetado por Roberto Loeb, o prédio da Rua Oscar Freire é conhecido na cidade pela forma que evoca os rolos da Torá, e Ballester fotografou-o de perto e de baixo para cima, colocando a câmera sob os anéis de concreto que sustentam as lâminas de vidro e mostrando-os em sequência, uns dentro dos outros, até a abertura por onde entra o céu branco. As fotografias da Biblioteca Brasiliana entram como o segundo termo de um diálogo, porque o edifício da Cidade Universitária foi projetado por Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, filho de Roberto e neto de José Mindlin, de modo que os dois prédios estão ligados por um parentesco de sangue além das afinidades de linguagem, visíveis no concreto aparente e na luz filtrada por lâminas antes de alcançar o interior. Há ainda uma afinidade de programa, pois um edifício tem a forma do rolo, que é o livro na sua figura mais antiga, e o outro foi desenhado para guardar códices, que são a figura que o substituiu.

Um segundo assunto atravessa essas imagens e as distingue de um inventário de monumentos. Na Casa de Vidro, o tronco de uma árvore sobe ao lado da escada e a mata ocupa os vãos entre os pilotis; na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, a vegetação cobre as lajes e desce sobre os espelhos d’água; no Parque da Luz, as raízes de uma figueira emolduram a clareira com a função que, em outras fotografias, cabe a um pórtico. Volto por isso à frase do começo, pois o paraíso de que Ballester fala é um lugar inteiramente construído, feito de rampas, cúpulas e pilotis, no meio de uma natureza cuja abundância torna provisório tudo o que nela se ergue. As suas fotografias sugerem que essa natureza consente que os edifícios continuem a existir, desabitados, para que neles ecoe a lembrança de que uma vez estivemos aqui.

Luiz Armando Bagolin