São Paulo, Brasil
29/10/2026 - 16/12/2026
Exit non exit
Fotografias de Cristiano Mascaro
Sobre as portas de quase todos os interiores do mundo, de um aeroporto em Doha a um
shopping em São Paulo, uma pequena placa luminosa repete a mesma palavra: exit. O inglês da sinalização a herdou do latim, onde era verbo na terceira pessoa do presente — exit, elesai; non exit, ele não sai. Esta exposição toma as duas leituras ao mesmo tempo, a dasinalização e a da gramática antiga, para perguntar o que a arquitetura sempre decidiu antes de nós: de quais espaços se sai, em quais se permanece, e quem, afinal, é o sujeito desse verbo que atravessa há dois mil anos as portas dos edifícios.
O fotógrafo e arquiteto Cristiano Mascaro (Catanduva, 1944) construiu ao longo de mais de cinco décadas uma das mais consistentes investigações visuais brasileiras sobre o espaçoconstruído. Formado pela FAU-USP, iniciou sua trajetória como fotojornalista nos anos 1970, e São Paulo permaneceu desde então o núcleo de sua pesquisa, a cidade que ele fotografou refazendo-se incessantemente sobre as próprias ruínas. A seleção reunida aqui, porém, revela a extensão menos conhecida desse percurso: Bolonha, Vicenza, Milão, Nápoles, Palermo, Salamanca, Batalha, Porto, Lisboa, Paris, Londres, Varsóvia, Havana, Doha, Tóquio, Nova York, ao lado do Rio de Janeiro, do Recife, de Salvador, de Brasília e da metrópole paulista, que segue sendo a medida de todas as outras.
O que unifica esse arco é uma pergunta sobre a natureza dos espaços: público ou privado, sacro ou profano, de travessia ou de permanência. As cidades enumeradas dão corpo a essa pergunta, e é ela que afasta o conjunto do inventário de monumentos, gênero que Mascaro sempre recusou. Diante de cada edifício, sua câmera age como instrumento de interrogação, e a figura humana — o passante sob as colunas do Capanema, a mulher de abaya diante das torres de Doha, o leitor no alto das estantes do Real Gabinete — comparece como medida silenciosa, o termo pequeno e móvel contra o qual a escala do construído se torna legível.
Há, primeiro, os espaços que retêm. A fachada inacabada de San Petronio ao anoitecer, o cimbório do Convento de San Esteban, em Salamanca, visto do cruzeiro, o Mosteiro da
Batalha sob a chuva, a cripta de San Gennaro, em Nápoles, onde um cardeal de mármore
permanece ajoelhado há cinco séculos diante do próprio silêncio, a capela do Palácio da Alvorada entrevista por entre cortinas, a Catedral de Santa Maria de Kenzo Tange erguendo suas cascas de aço como uma tenda mineral: são arquiteturas avessas à promessa de saída e que, precisamente por isso, se abrem para cima. Nelas o verbo latino se conjuga na negativa — non exit — e a permanência é a condição mesma da experiência que oferecem.
No polo oposto estão os espaços que existem apenas para serem atravessados. A Galleria
Vittorio Emanuele, catedral do comércio milanês, é a culminação monumental do tipo
arquitetônico em que Walter Benjamin, debruçado sobre as passagens parisienses que a
precederam, leu a assinatura do século XIX: “uma cidade, um mundo em miniatura”,
segundo o guia oitocentista que ele recolhe no Passagen-Werk, e, na sua própria formulação, casas ou corredores que não têm lado de fora, como o sonho. Sob a cúpula de ferro e vidro, quem entra segue na rua e, ao sair, é devolvido a um lugar de que nunca chegou a se ausentar.
Seguem-na as escadas rolantes desertas de uma galeria paulistana, herdeiras diretas dessa forma, multiplicadas em simetria quase litúrgica; o posto de gasolina flutuando na neblina noturna como um pavilhão sem cidade; a curva do viaduto onde pedestres descem em fila contra a luz rasante; o casario do Pelourinho e o Malecón de Havana, fachadas que o tempo, único transeunte, desgasta; as avenidas de Nova York, onde o Rockefeller Center e o Seagram organizam o trânsito de milhões que jamais se deterão para vê-los. São os territórios do exit permanente, arquiteturas cuja vocação é o fluxo e cujo drama, revelado pela câmera, é a hora vazia em que ninguém passa.
Entre os dois regimes, a exposição demora-se nos limiares, que talvez sejam seu verdadeiro assunto. As bibliotecas — o Real Gabinete Português de Leitura, a própria tradição que a Brasiliana encarna — guardam quem entra e ao mesmo tempo o despacham para todos os lugares que um livro alcança. O elevador da Pinacoteca de São Paulo, suspenso no vão entre as empenas de tijolo pela reforma de Paulo Mendes da Rocha, Eduardo Colonelli e Weliton Ricoy Torres, converte o deslocamento vertical em contemplação, e o corredor murado que Álvaro Siza estendeu em Serralves estreita o mundo até um único vão de luz. Os tetos pintados dos teatros, fotografados de baixo à maneira de céus artificiais, pertencem a salas de onde se sai sempre ao fim do espetáculo e que conservam, na abóbada, a promessa de que nem tudo passa. As praças — a do Comércio em Lisboa, a Maggiore em Bolonha — são o limiar levado à escala urbana: nelas a cidade inteira ensaia, há séculos, a diferença entre estar e passar.
A luz é o operador de todas essas distinções. Cortante ou difusa, ela desenha no concreto, no mármore e no vidro um ritmo que a cor dissolveria, e o preto e branco de Mascaro, alheio à nostalgia, opera como redução analítica: subtraída a cor, resta a estrutura, e com ela a evidência de que a torre dos Asinelli e a torre espelhada de Varsóvia, a basílica de Palladio e a fachada de Jean Nouvel respondem a um mesmo repertório de cheios e vazios, de opacidade e transparência, que atravessa nove séculos sem se interromper. Em diálogo direto com a arquitetura de Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, as salas da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin acolhem esse repertório explorando o contraste entre a precisão estrutural do edifício e o caráter atmosférico das imagens; a escala das ampliações e o ritmo
da montagem fazem da visita, ela também, uma travessia.
O visitante que atravessar essas salas fará o que as fotografias mostram: entrará em espaços, demorará em alguns, sairá de todos — e será ele, por fim, o sujeito do verbo anunciado no título. A exposição aposta que, ao término do percurso, a pequena palavra luminosa sobre a porta terá recuperado sua espessura antiga, e que a diferença entre sair e permanecer, decidida em cada época pela arquitetura, se revelará também uma decisão sobre o que uma sociedade considera digno de duração. Dessas imagens, porém, nada sai: a hora, a luz e o passante que elas fixaram permanecem ali, à espera de quem voltar. A fotografia, arte que retém o que passa, é o non exit por excelência.
Luiz Armando Bagolin
